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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Pessoa

Pessoa partiu faz 81 anos.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

Recorda-se o Apontamento do heterónimo Álvaro de Campos:
"A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali."

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Variações canta Pessoa


Hoje, dia de Santo António, para além do significado religioso e popular, trata-se de uma data de chegadas e partidas. Recordamos Fernando Pessoa e António Variações em a “Canção”:



CANÇÃO, um poema de Fernando Pessoa, no álbum DAR & RECEBER (Portugal, EMI-Valentim de Carvalho, 1984).

Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal oiço e quase choro.
Por que choro não sei.

Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Fernando Pessoa (1888-1935)

Nos oitenta anos da sua morte, recordando Pessoa:


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso 
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914

domingo, 21 de junho de 2015

Solstício de Verão 2015

Ao que nos é dado saber, o Solstício de Verão começou hoje (21 de Junho de 2015), pelas 16h38m; marca o início do Verão e define-se como o momento em que o Sol, assim como o vemos a partir da Terra, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do Equador. Solstício significa "sol parado", uma vez que para o observador que está na Terra, o sol parece manter uma posição fixa ao nascer e ao se pôr, durante algum tempo. Este Solstício acontece duas vezes por ano, em Junho no Hemisfério Norte e em Dezembro no Hemisfério Sul, definindo uma mudança de estação que, no caso, representa o inicio do Verão.


E agora que os dias vão cada dia ficar com menos horas de sol (logo agora no Verão!), recordo o "Entardecer dos Dias de Verão":
No entardecer dos dias de Verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa... 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... 
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão ... 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos ... 
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma cousa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, 
E deve haver muita cousa 
Para termos muito que ver e ouvir ... 
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI" , Heterónimo de Fernando Pessoa 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Variações

A 13 de Junho de 1984 partiu António Variações, tinha apenas 39 anos. Um canto-autor português, de imagem extravagante, mas de enorme talento e muito à frente do seu tempo, como as suas músicas facilmente provam. Ilustro o seu génio com uma versão interpretada pelo projecto Humanos:



Neste dia de Santo António de Lisboa assinalam-se partidas de outras distintas figuras portuguesas do meio artístico e político, como sejam, Vasco Santana, Hermínia Silva, Al Berto, Eugénio de Andrade, Álvaro Cunhal, mas também neste dia chegaram Fernando Pessoa ou a pintora Vieira da Silva.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sexta-feira Santa

Porque hoje é sexta-feira Santa:

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra

(Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Da minha aldeia...


"Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...  

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer 
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura... 
Nas cidades a vida é mais pequena 
 
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. 
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver. " 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII" 
Heterónimo de Fernando Pessoa